Monday, March 14, 2011
De todo, flor.
Tem dias em que não sabemos bem como explicar as forças que nos movem, que nos empurram ao movimento certo (?), repetitivo, constante e sobretudo direcionado. Vivemos sem a consciência da vida, para frente, atrás da manada, em linha, acompanhando o todo. Nos escondemos atrás do rebanho e nos esquecemos da responsabilidade individual que o todo carrega. Cada um em si é responsável pelo todo.
Tem dias em que estar atento ao todo e alerta ao ordinário já faz a diferença.
Hoje é um desses dias.
O sol ainda teima em aparecer por detrás dos prédios cinzentos da cidade. Ela, poluída pelo homem que cria, avança rápido derrubando a natureza. E essa se esforça em ocupar seu espaço no meio do caos da imperfeição criada pelo mesmo homem que cria.
E eu aprecio, de longe, do alto, como se não estivesse fazendo parte disso.
Tamanha a agonia quando é preciso a forma mais bela da natureza me mostrar a realidade crua, dolorida e entorpecente da falsa beleza que se expande da minha varanda.
Porta aberta, e ele entra. Voando gracioso, me olha (ou sou eu quem imagina) como que pedindo licença. E entra. Rodopia pela sala, analisa, se trasporta pelo ar em movimentos leves de extremo cálculo matemático. Ele sobe, voa alto e o perco de vista. De uma forma natural sei que ele ainda é presente. No andar de cima ele me espera voando em círculos. Um pouco de paciência e ele se entrega nas mãos do criador/destruidor. Sinto seu coração bater mais rápido ainda.
Com uma confiança cega descansa em mim ciente de seus limites, entregue à sua própria vulnerabilidade.
Contra todas as leis de conduta social, converso com ele. Me desculpo e peço perdão por fazer parte do inimigo, por ser conivente. Pelo vidro das janelas, pelo espaço que ocupo em meio ao espaço que também é dele por direito Divino. Me desculpo e peço perdão por todas as árvores que permiti cair. Pela crença do Concreto, pela religião do Mais e pela filosofia do Tudo-pode. Me envergonho.
Já de volta a varanda ele, na mão, ainda descansa. Me olha carinhoso (ou a imaginação me toma novamente) e move a cabeça de um lado para outro. Mostro a flor, ele reage. Com a mão aberta ele ainda me concede o tempo necessário para apreciá-lo em sua forma mais completa e perfeita, inerente à criação.
E eu, o destruidor, me destruo por dentro quanto maior sua confiança em mim. Um beijo meu sela o pacto. Novamente ele me agrada com seus olhos negros, se levanta. Voa gracioso a minha volta e pousa em meu braço. Mais um olhar e seu dia se estende pela mata ciliar num voo calculado, perfeito, como cabe a toda perfeição concedida pelo Criador.
Me envergonho e me apresento ao novo dia, desta vez consciente da responsabilidade que carrego para com toda criatura, consciente da dor que me envolve e da vergonha que sinto. Responsável dou graças ao Criador e me entrego, confiante como meu novo amigo, às vicissitudes de um novo amanhecer.
Marcelo Gimenes
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Meu grande e querido AMIGO!Palavras para quê!O teu texto é maravilhoso!Um bjo com muito carinho saido do meu coração
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